Abra seu site preferido de notícias. Ou melhor, seu site favorito de fofoca.
Vai lá, eu espero.
Foi? Então me responda com sinceridade: Quantas dessas notícias falam de sofrimento humano? 50%? Estou sendo otimista, né? 80% vai, pra não te deixar muito alarmado.
Agora só mais uma dúvida:
Quantas dessas te deixaram feliz?
Em 2024, o mangaká japonês Junji Ito publicou mais uma de suas histórias de terror, dessa vez, trazendo um enredo voltado para o terror cósmico, o tipo de gênero que lida com viagens dimensionais, seres que desafiam as leis da física e perigos vindos do espaço sideral.
Junji Ito decidiu fazer o contrário.
Na trama, conhecemo o professor Oguro, um renomado físico e diretor de um planetário. Após longos anos de pesquisa em seu observatório, o cientista descobriu um “buraco de minhoca” localizado próximo da Via Láctea. Mais ainda: seus estudos tinham resultado em provas de que esse “portal espacial” serviu de passagem entre duas dimensões. A nossa e uma dimensão desconhecida. Lá de dentro, saiu um planeta.
A mídia logo espalhou a notícia. Oguro foi ovacionado, idolatrado. Investimentos do governo, aumento de salário, coletivas de imprensa, Prêmio Nobel. O homem não apenas comprovou a possibilidade de viagem inter-dimensional como encontrou um corpo celeste que sofreu esse translado. (Ok, sofreu é uma palavra muito forte, escolheu é melhor.)
Na entrevista mais recente, Oguro levou sua filha para acompanhá-lo, uma menina de 16 anos chamada Remina. Durante as inúmeras perguntas da sabatina (adoro essa palavra, tem uma sonoridade tão divertida), surge o questionamento:
Professor, como o senhor descobriu esse novo planeta, o senhor tem o direito de dar um nome pra ele. O senhor já escolheu como vai chamá-lo?
Você é um leitor(a) inteligente, então já deve ter adivinhado a resposta.
Remina, uma moça tímida e introvertida, é elevada ao status de celebridade teen mais famosa do planeta. (E nem precisou cantar K-POP). Logo, todas as emissoras, patrocinadores, marketeiros e empresários querem fechar um contrato com ela. Enquanto Remina, o planeta, brilharia no céu, Remina, a garota, brilharia na terra.
A princípio, ela recusa veementemente (outra palavra maneira demais). Ela se diz muito jovem, muito receosa, muito inexperiente. Porém, conforme os pedidos, e os fãs, aumentam (tanto que ela nem consegue mais sair na rua), ela decide fechar um contrato para ser o novo rosto de uma empreiteira e construtora. Tudo parece um mar de rosas.
Parece.
Enquanto os pesquisadores continuam as observações sobre o planeta, uma nova informação é descoberta. Remina, ao contrário dos demais corpos celestes, não tem um órbita, mas uma trajetória. As leituras indicam que o seu movimento é linear, como se estivesse “andando” numa direção específica. A cada novo sistema visitado, Remina absorve outros mundos, destruindo-os e aumentando seu tamanho.
A constatação é um choque geral.
Remina não é um planeta.
É um ser vivo.
Cósmico. Veloz. Insaciável.
O pânico é geral. Um monstro colossal não apenas entrou no nosso universo, como está vindo para o nosso planeta. Enquanto a maioria se dedica a roubar, lutar e fazer tudo o que nunca puderam (ou podiam e não tinham coragem) antes de morrerem, existem alguns poucos que debatem como podemos salvar a Terra. Qual a melhor forma de livrar a humanidade desse mal e voltar para suas vidas de paz e harmonia? O que fazemos para restaurar nosso mundo à sua era de felicidade infinita?
Nós precisamos de um assassinato.
Não, assassinato fica muito feio. Precisamos de um SACRIFÍCIO. Pronto, agora adicionamos um tom mais amigável. Afinal, um sacrifício é algo nobre, bonito, sagrado até. É uma morte por um bem maior. É algo necessário, não é? Não tem melhor forma de executar justiça do que derramando sangue. Mas qual sangue?
É aqui que Junji Ito me atingiu. Nessa inversão do terror cósmico para o horror social. Enquanto o “planeta” devorava metade da galáxia, Remina e seu pai ascendiam na sociedade. Dinheiro, fama e reconhecimento. Deve ter alguma relação. Alguma causalidade.
A culpa é deles!
Eles causaram esse sofrimento!
Eles invocaram o monstro!
Oguro é um demônio!
Remina é uma bruxa!
E bruxa, meu caro, vai pra fogueira.
Os fãs, antes tão devotos, se tornam algozes. Os amigos, agora são caçadores. Não há lugar seguro para que Remina e seu pai se escondam, se protejam dos perseguidores.
Enquanto lá fora, Plutão é destruído, Oguro é capturado, aprisionado, crucificado em praça pública. Mas ele ainda não pode morrer. (Mas Netuno morre.) Encontrem sua filha. (Urano se foi.) Tragam-na até aqui. Açoitem-na. (Saturno desaparece.) Ponham Remina numa cruz ao lado do pai. Ele o verá morrer antes de ser sacrificada. (Júpiter foi consumido.)
Ito nos transporta diretamente para a mente de Remina. Ela é uma vítima do que hoje muitos chamam de “Cultura do Cancelamento”, com uma diferença crucial: Remina está realmente correndo perigo de vida. Não é somente sua imagem que está ameaçada. O fim aqui não se refere só a um relacionamento, um contrato ou um perfil na rede social (tudo isso pode ser recuperado, dependendo das circunstâncias). Porém a Morte, derradeira e eterna, é o fim de todas as nossas possibilidades. O que poderia vir a ser, nunca será. Quando o presente morre, todos os futuros morrem junto.
A atitude de seu pai de homenageá-la um ano antes, dando seu nome àquele novo mundo, foi o suficiente para que sua imagem e seu nome fossem associados com a fonte do medo que permeia o mundo. O desejo por matá-la, por vê-la ferida, humilhada, sofrendo, não é motivado apenas por um sentimento de ódio, mas também por uma sede de justiça.
Se ela é o rosto daquilo que me ameaça, que me assusta, então eu tenho não apenas o direito, mas a obrigação de combatê-la. E veja bem, eu não faço isso apenas por mim, faço por você também. Pelos nossos idosos, pelas nossas crianças, pelo nosso planeta.
Vai me dizer que você não fica feliz quando aquela pessoa odiosa se dá mal? E daí que ela é uma vida, que ela tem sentimentos, que ela também sente medo, que ela também sente dor? Ela merece, né?
Engraçado, já vi esse discurso antes….
Porém, o buraco é ainda mais embaixo. (Ou em cima, se estivermos olhando pra atmosfera). A caçada por Remina não se limita ao território japonês. América, Europa, África e Oceania também se movem com seu poderio bélico para tirar a vida de uma adolescente. Porquê? Por que o autor está tentando mostrar o verdadeiro terror que irá destruir o planeta Terra.
Para que Remina seja sacrificada, não é preciso uma criatura maior do que o sol, não é preciso procurar monstros entre as estrelas. Basta associá-la com algo que a humanidade teme. Basta retratá-la como alguém que merece aquele sofrimento e aquela perseguição. (Eu nunca faria isso, o leitor dirá. Claro que faria. Só depende de quem é a bruxa, ou do que ela fez.)
Ela deu uma entrevista polêmica. Ela falou mal do meu time do coração. Ela viajou pra um certo lugar. Ela fez um desenho torto. Ela cantou mal uma música. Ela tirou uma foto esquisita. Ela nasceu num signo diferente. Ela ganhou dinheiro. Ela gastou dinheiro. Ela é filha do próprio pai. Ela andou na minha rua. (Pode ser ele também, ok? A morte não discrimina ninguém)
Se a carapuça servir…
O que falhamos em compreender, tanto na história de Ito, quanto no mundo real, é que sacrifícios não resolvem nada. Atacar uma pessoa, silenciar uma voz, bloquear um perfil, são efeitos inúteis e provisórios. Não eliminam os conflitos, apenas reduzem-nos, limitam seu alcance, mas eles ainda estão lá. Esperando o momento em que poderão explodir outra vez.
Ao invés de agirmos contra o verdadeiro perigo (seja o que quer que esteja nos assustando e nos preocupando), nós atacamos uns aos outros, ferimos uns aos outros, matamos uns aos outros, acreditando que amanhã estaremos a salvo. Porém, o mal é uma dimensão da qual a humanidade não consegue escapar, a não ser para sair da frigideira e pular direto no fogo.





Pobre criatura. A estupidez do mundo exigiu a sua vaidade e depois a sua cabeça. Algol.
The Walking Dead é outra obra que já abordei aqui (News número #19). Uma obra incrível que mostra muito de como o ser humano é cruel. Às vezes muito mais que um zumbi.
O engraçado dessa história de Ito é que Remina se torna uma alvo, a princípio, pela pressão popular. O envolvimento "global" em caçá-la, só acontece muito depois que ela é perseguida por vizinhos, colegas de trabalho e pelo povo em geral.
O porteiro do prédio, o cameraman, a motorista do taxi, a maquiadora, a socialite ricaça ou o empresário famoso. Nenhum deles põe a mão na consciência e considera estar errado. Nenhum deles tenta salvar a vida daquela criança. A vontade de exterminá-la surgiu nas ruas e só depois o mundo inteiro se curvou à "vontade divina e soberana das massas".
Como sobreviver se o mundo inteiro se torna seu inimigo? Talvez arrumando um "mundo maior" que ataque os seus agressores, como Ito decidiu contar.