#40 - Café, Cerveja e Pimenta
Às vezes, o desconforto está em mim mais do que está no mundo.
Duas semanas atrás, eu voltei de férias. É sempre uma diversão sair de um lugar, ficar longe por um tempo, voltar e perceber que nada mudou, seja por quinze dias, dois meses ou dez anos. A sensação de familiaridade ao encontrar tudo no mesmo lugar nos dá certa alegria, uma estabilidade que comunica com clareza: tudo está estável. Se nada muda, então tudo está bem.
Chego à minha mesa e encaro a pilha de papel que está lá há dez dias, talvez mais. É o custo de não ter ninguém para cobrir sua ausência. Se você determina um responsável pela tarefa, todos os demais vão achar que não precisam fazer nada a respeito. Se você não determina, eles vão ter certeza.
A papelada pode esperar. Sempre pode, apesar do que dizem as “más línguas”. A cafeteira começa a trabalhar antes de mim. Ela também teve suas férias, já que ninguém mais nessa sala parece gostar de café. Ou talvez seja a forma como eu preparo. Preto, amargo. A xícara parecendo um balde de tinta. Umas colheres de açúcar ajudariam meus colegas a lidar com o gosto, mas a doçura demanda esforço. A amargura também. E ninguém quer fazer trabalho nenhum.
Eu já me acostumei com o café amargo. Não porque algum guru de Instagram me convenceu de que isso vai me tornar mais másculo, casca-grossa ou disciplinado; pelo contrário, sou preguiçoso demais para ter tanto empenho só para adoçar o café. Conforme o tempo passa, a gente se acostuma com o gosto amargo, assim como se acostuma com a papelada interminável. No começo é irritante, mas depois percebemos que aquilo não é tão “grave”, mas se torna grave, pois não atende às nossas preferências.
No último sábado, eu e minha esposa fomos fazer compras. Na volta, o pneu dianteiro do carro furou. Nenhum acidente, nenhum dano sério para nós ou para o carro. Desci, troquei pelo estepe e seguimos para casa. Mas foi o suficiente para me irritar.
Como eu não previ uma coisa dessas? Como eu não percebi que havia um prego no caminho? Como deixei minha esposa passar por uma situação dessas? Mesmo que eu tenha resolvido logo, isso não é uma experiência pela qual eu queria que ela passasse. Meu estresse não veio de passar por um incômodo, mas por fazer com que ela passasse junto comigo, mesmo que tenha sido um imprevisto.
À noite, já em casa, abrimos uma cerveja e assistimos a uma série, já esquecendo do problema daquela tarde. O gosto “amargo” da bebida é menos sentido quando dividimos esse momento. Quando podemos sentar em companhia, em casa ou num bar, e rir dos infortúnios da vida, daquela parte menos agradável que não nos desce ou que, quando desce, não é nada redondo.
Beber socialmente é divertido, agradável, mas sofrer socialmente ainda é malvisto, como se enfrentar um problema em público fosse tão malvisto quanto sofrer de um vício. Sempre vai ter quem pense: “você pode até sofrer, só não me envolva nisso.” E nós internalizamos isso, tentando esconder nossas dores e nossas lutas, até de quem quer dividi-las conosco. O outro nem sempre se incomoda, mas nós, ainda assim, nos condenamos por “dar trabalho”, como se qualquer esforço fosse uma crueldade.
Mês passado, minha esposa fez uma prova e conseguiu a aprovação na primeira fase do certame. Comemoramos no dia da prova mesmo, num restaurante que ficava por perto. Enquanto comíamos, pensávamos em como organizar a vida caso a aprovação final venha e tenhamos que nos mudar outra vez, considerando todo o trabalho que deu com a última mudança (quando viemos para cá).
Sobre a mesa, além dos pratos e das bebidas, havia um frasco de pimenta, daqueles em que umas cinco ou seis pimentas ficam espremidas, o que dá um gosto bem mais forte para a comida. E por que alguém colocaria pimenta na própria refeição? Por que passar por tamanho incômodo gustativo? Porque é bom. Porque nada está sendo retirado, censurado. Pelo contrário, a pimenta é um acréscimo, algo a mais, que, embora tenha sua ardência (sua demanda por um esforço de “adaptação”), não é ruim. Assim como uma nova oportunidade de emprego, de crescimento, de aprendizado não é ruim, mas exige um trabalho pessoal para lidar com aquilo, para vermos o gosto por trás do esforço. Se precisássemos nos mudar de novo, isso não seria ruim. Não “estragaria a comida”. Na verdade, daria um novo sabor, uma nova perspectiva e uma nova atenção que talvez não tenhamos mais agora que ficamos acostumados.
Quando paro para pensar, vejo que muitas situações que me tiram do sério ou me preocupam não geram esse efeito pela coisa em si, mas pelo trabalho que exigem. Meu desconforto é maior pelo esforço que vou enfrentar pra resolver a questão do que pelo problema em si. Contudo, o cotidiano só confirma que não enfrentar é o que causa mais incômodo.
É muito pior quando há um problema e ninguém faz nada. É muito pior quando estamos numa situação difícil sem pedir ajuda nem dividir o sentimento. É muito pior quando abrimos mão de algo bom para nós porque “vai ser desconfortável”. O gosto “amargo” também pode agradar. Como um café sem açúcar, um chopp gelado ou uma comida apimentada. A gente só precisa aprender a apreciar o esforço.





fiquei pensando muito sobre o conforto de voltar e encontrar tudo igual. já vivi isso bastante e, vez ou outra, ainda vivo. mas algumas situações mais recentes têm feito com que eu me decepcione com essa imutabilidade. quando percebo a decepção, entendo que ela vem de uma expectativa que eu não aderecei: há algo em mim querendo mudar, mas ainda não ouvi com atenção. tampoco agi.
já passou por algo assim?
Faz todo o sentido, Carlos. Pior fica quando ninguém resolve, quando não dividimos e quando achamos que precisamos carregar os abacaxis sozinhos. Gostei de pensar na pimenta como esse algo a mais. Uma boa metáfora!