#35 - Tolerância é extinção.
Não há semelhança que impeça o conflito. Não há diferença que impeça a paz.
"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros."
Você com certeza já escutou que “a vida imita a arte”. Não é incomum vermos no dia a dia, cenas que nos remetem à fantasia e à aventura encontradas na ficção. Algumas obras tem o poder de sugestionar, motivar e inspirar nossas mentes, seja para o bem ou para o mal. Governantes, empresárias, donos de casa e até aquela celebridade que fez sucesso com um vídeo de 2 minutos, todos somos influenciados pela ficção. Desde ideias de brincadeiras com as crianças num dia chuvoso até métodos para cometer um crime e escapar sem ser pego.
Contudo, o oposto também é verdadeiro. A arte imita a vida numa progressão assombrosa. Cada personagem, cada cenário, cada diálogo, por mais absurdo que seja, nasceu da fusão entre experiência e imaginação de uma mente humana. As ideias são um amálgama entre realidade e loucura, fazendo referência a temas como preconceito, violência, guerras e catástrofes humanas dos tipos mais variados.
A arte, porém, consegue dar um passo adiante e imaginar possibilidades, criar cenários e nos mostrar os futuros possíveis caso, no passado, as decisões tivessem sido diferentes.
O poder da arte é direcionar esse espelho, movê-lo em certo ângulo para que a luz revele mais do que poderíamos ver. O artista pode transformar um herói num vilão, corrigir uma injustiça, reconhecer quem foi esquecido, dar voz aos silenciados. Nas páginas, nas telas ou nas formas estão representações de pessoas reais, de dilemas concretos do nosso mundo.
Em seu A Revolução dos Bichos, George Orwell usa os animais de fazenda para nos mostrar um traço de personalidade muito humano: nós somos atraídos pela semelhança. Naturalmente depositamos mais confiança em quem é do mesmo gênero, da mesma etnia, da mesma classe social, das mesmas crenças. Porém, num mundo tão diverso quanto o nosso, diversidade é regra, não exceção. Excluir, segregar, humilhar o outro apenas por ser diferente de mim é algo que nem animais fazem, a não ser os porcos do livro (e os humanos).
Contudo, mesmo entre indivíduos parecidos, existem diferenças. Mesmo entre pessoas do mesmo grupo podem nascer divisões. Algo contraditório e incômodo, afinal, como você que se parece tanto comigo, me julga inferior? Porque é tão difícil enxergarmos que possuímos mais semelhanças que diferenças?
O preconceito, a discriminação e o próprio racismo já foram temas da vida real que a arte não apenas copiou, como aprimorou, dando novos realces. E dentre as obras que eu li, a melhor delas na abordagem desses temas foram os quadrinhos dos X-Men. E dentre sua centena de personagens, nenhum deles é tão impactante quanto Magneto.
Erik Magnus Lehnsherr nasceu na Alemanha na década de 1930, filho de uma mulher judia. Após presenciar a morte brutal de sua mãe em Auschwitz, Erik desperta seus poderes: controle sobre o magnetismo. Era somente um garoto quando conheceu os horrores da guerra e dos campos de concentração, instalações criadas para torturar e matar judeus, ciganos e qualquer outra pessoa que não pertencesse à Raça Ariana. Com o fim da Segunda Grande Guerra, Erik sentiu sua esperança retornar. Apenas para ser tirada novamente.
Assim como todo mutante, Magneto vivia com medo, mudando-se de cidade em cidade, escondendo seu verdadeiro eu. Contudo, mais cedo ou mais tarde, seus poderes eram descobertos e sua vida ameaçada. A humanidade enxergava os mutantes apenas como uma ameaça.
O julgamento era sempre o mesmo: quem tem um poder, vai usá-lo para o mal. Ninguém tentava conhecer a alma por baixo da pele, a mente por trás do feitos, o caráter atrás da imagem. A matemática era simples demais para causar confusão: mutante igual a perigo.
Por anos Magneto tentou lutar contra o sistema, de diversas maneiras possíveis: agentes mutantes na política, acordos com o governo, revolução mutante (uso militar dos superpoderes). Luta atrás de luta atrás de luta. Todas resultando em fracasso. A convivência pacífica com a sociedade humana parecia um sonho muito, muito distante. Os anos só mostravam o quanto a sociedade era intolerante, a ponto de criarem robôs para patrulhar as ruas e capturar mutantes (uma referencia direta à força policial que sempre visa o mesmo perfil de “suspeito”)
Imagine viver num mundo que te odeia apenas por nascer. Ser condenado a uma vida de sofrimento apenas existir. Ver os olhares de desprezo quando você entra num recinto, perceber como o outro se afasta de você na rua, mesmo que você não faça nada. Não bastasse o comportamento, as palavras também denotam o desgosto.
“Como vocês permitem essa gente na escola dos meus filhos?”
“Não atendemos seu tipo nesse hospital.”,
“Não quero você andando com essas criaturas. Por mim, eles não andavam nem no mesmo ônibus que nós.”
“Como assim eles estão lutando por direitos? Eles querem é roubar nosso lugar, querem nos diminuir….”
“Deviam criar uma rede social só pra essas coisas usarem, sem se misturar com o resto da internet…”
Magneto, cansado de lutar, assume o controle político da ilha de Genosha, uma nação que prosperava através da escravidão. E não de qualquer grupo, mas de mutantes. (Perceba como a arte recria situações históricas reais). Como líder soberano, Magneto liberta os escravos, manda embora os humanos e decreta aquele lugar como a primeira nação mutante do planeta. Ali seria um refúgio, um santuário para aqueles que, ao redor do globo, eram maltratados e destruídos. Aquele grupo desprezado até pela própria família, finalmente teria um lar.
Mais uma vez, a esperança durou pouco.
A jovem nação é alvo de um ataque genocida. Ao todo, dezesseis milhões de pessoas são assassinadas. Entre os pouquíssimos sobreviventes está Magneto, que presencia outra vez um crime dessa magnitude. Depois do choque inicial diante tantas perdas, sua mente fica tão abalada que nada mais faz sentido. Não há nenhuma crença ou verdade a qual se agarrar, apenas uma: a humanidade é nossa inimiga e se não podemos viver em paz no mesmo mundo, então eu preciso eliminá-los de vez. Se eles são intolerantes, então vou responder com mais intolerância.
Magneto torna-se mais que um líder, mas um símbolo de resistência. Sua gente clama por vingança e ele promete entregá-la. A humanidade pagaria com sangue. Erik estava disposto a virar o mundo de cabeça pra baixo e matar todos que interferissem. Até que a verdadeira culpada pelo ataque se revela: uma mulher chamada Cassandra Nova. Irmã do Professor Xavier e com os mesmos poderes dele. Furiosa e com desejo de vingança contra o irmão, ela foi a arquiteta de toda aquela destruição, unicamente para feri-lo. Dezesseis milhões de vidas perdidas, por uma rinha de família. Não foi à toa que os autores puseram a ilha fictícia no Oceano Indico, entre a África e o Oriente Médio, uma “ponte” entre os lugares mais violentos do mundo.
Quando a revelação é feita já é tarde demais. Magneto já tinha iniciado sua vingança. Sua nova visão era de que a humanidade representava um perigo tão grande que deveria ser caçada e exterminada. Seu discurso tornou-se o de “Superioridade Mutante”, onde todos aqueles que não pertenciam à classe eram inferiores e deviam ser exterminados.
Sem perceber, seu pensamento transformava-se num reflexo do mesmo pensamento que levou à morte de sua mãe na Alemanha nazista. Tornou-se um líder absoluto, pregando uma raça superior e morte a todos que não pertenciam a ela. Ao seu redor, milhares de vozes repetiam que ele tinha razão, que devido a suas perdas, era correto agir daquela forma. Era uma vingança justa. (Quase como se o país dele tivesse perdido uma guerra mundial quinze anos antes)
Descobrir a verdade mudou a fúria de Magneto? Não. Ele e Cassandra nem mesmo se encontraram. Quem buscou justiça contra a verdadeira culpada foi Xavier, com seus alunos, que buscavam proteger não somente os mutantes, mas ainda lutavam pela coexistência, lutavam pela vida. Seu treinamento consistia em julgar não somente pelo que vêem, mas com pensamento crítico, sabendo que o mal pode assumir diversas aparências. E nem sempre tão óbvias. Às vezes a maldade, assim como a beleza, está nos olhos de quem vê.

A história não tem como meta determinar quem está certo e quem está errado. Existem mutantes perigosos? Sim. Existem humanos perigosos? Sim. A pergunta que o autor quer expressar é: onde traçamos a linha? Como julgamos que um indivíduo X é ou não uma ameaça? Pelas características físicas? Pelo lugar de nascimento? Pelas suas capacidades motoras ou mentais?
O quão igual a nós alguém precisa ser para que o aceitemos? Se semelhança é segurança, porque há tantos casos de violência entre gente com tão poucas divergências? E se o perigo é quem não faz parte da nossa “raça” (e leia-se por raça qualquer motivo suficiente para se sentir “especial”) o que fazemos quando somos atacados por um dos nossos? Tratamos com o mesmo rigor? Passamos pano? Olhamos pro lado?
E quando sou eu o causador do sofrimento? Quando as minhas mudanças incomodam (mesmo que sem querer), eu tenho honestidade pra reconhecer que posso eu também me tornar motivo de insegurança pro outro? Eu sou capaz de assumir que eu tenho potencial pra ferir alguém? E quando a decisão de fazer ou não o mal, está nas minhas mãos?
“ - Eu.. eu.. Há quanto tempo… (Eu não conseguia pensar. Será que era contagiosa? Se as meninas tocaram… Se de alguma forma elas foram infectadas…)
“ - Nós a encontramos no parque, papai. Depois daquela grande tempestade. Ela estava toda molhada e com frio..!”
“ - Eu estava com fome, senhor. Senão eu continuaria escondida… Meu pai foi demitido do trabalho… Mamãe chorou o tempo todo. Eles disseram que não podiam cuidar mais de mim.. Que isso era tudo minha culpa… Eles foram embora…”
(Eles eram maus! Os mutantes… Eles queriam matar todos nós! Todo mundo sabia disso!)
“ - O senhor vai me mandar embora…?”
“ - Ela é legal, papai! Ela brinca com a gente!”
“Nick Cosgrove e Arthur Linstrom, lá fora com suas armas… Eles eram nossos amigos. Jogamos bridge com eles… Mas eu sabia.. Eles queimariam essa casa conosco dentro dela se soubessem que estavámos abrigando uma mutante. Eles estavam assustados a esse ponto. Eu estava assustado a esse ponto. Mas havia algo nos olhos dela - nos olhos disso - e eu não pude deixar de pensar na Liberação de Auschwitz... e na aparência dos seus olhos.. e…”
“ - Pai..?”
“ - Querido Deus, Doris.. Ela é só uma garotinha..!”
Toda intolerância é hipocrisia quando a tolerância está diretamente atrelada à conveniência. “Eu odeio, mas participo.”, “Não suporto, mas tiro proveito.”, “Detesto, mas me dá certas vantagens.”, como um político que denuncia corrupção enquanto esconde a propina no fundo falso da maleta.
O intolerante não odeia somente o que é diferente, mas ele teme, lá no fundo, que o contraste seja tão forte que provoque comparações, pois na mente dele, tudo precisa ser hierarquizado, controlado, preterido.
Talvez, a insegurança humana venha de um trauma escondido, de acreditar na mentira de que existe mesmo um “ser humano superior” e que nós, do jeito que somos, não entramos nessa categoria.
Talvez a humanidade seja intolerante porque acredita que “tolerância é extinção” e que quando a sobrevivência está em jogo a única lei que prevalece é a do reino animal. Embora nenhum animal mate tanto a sua própria espécie quanto nós.








Incrível! Me lembrei de um trecho que aparece na história “Generations”, publicada em Superman: Red & Blue #5, que mostra a relação dos Kent com o Superman. Em determinado momento, o pai de Clark vai se aconselhar com um padre sobre como criar uma criança como ele, e recebe como resposta:
“A reverend pauses and points out the story of Jesus. The very first thing God the Father said to him was: ‘You are my beloved son, in whom I am well pleased.’ ‘You are special. I’m proud of you. I love you.’ The reverend says: ‘Any child who hears and knows that will turn out all right. No matter how different.’”
Nas cenas seguintes, vemos Clark crescendo ouvindo palavras positivas, sentindo-se amado e acolhido. Já adulto, nas vestes de Superman, é capaz de amar a humanidade com todas as suas falhas e misérias porque foi amado primeiro.
Enquanto Superman cresceu experimentando amor e cuidado vindos de seus pais adotivos humanos, Magneto cresceu vendo apenas a miséria e a destruição causadas pela humanidade. Teve tudo tomado de si, viu sua vida ser destruída repetidas vezes diante dos olhos. Como proteger um mundo hostil e perverso? Como se orgulhar e cuidar de quem só quer destruir?
É um grande paradoxo que, no fim, nos leva à ideia de que o mal pode, sim, ser contido pelas pequenas ações de pessoas comuns — porque é nelas que se encontram amor, orgulho, admiração e cuidado: pilares fundamentais para uma base psíquica saudável, capazes de impedir que a destruição e o caos descontrolado tomem o lugar da ordem no mundo.
Excelente!
O artigo de quadrinhos que sempre quis ler
É incrível que apesar de todas as mensagens
Os mutantes são só "oprimidos" mas também "superiores".
Pensar que o magneto ele também crê na superiodade racial como seus inimigos do antigo passado em que em um futuro idealizado dele, humanos mortos ou contidos com uma criança sendo separado de seus pais o que não muito diferente do que fizeram com ele." Nunca mais ".
A ideia também que os humanos a maioria terem mesmo o medo de seu fim pois pensando bem os mutantes são perigosos na teoria.
No fim acredito que apesar de não ser fã do Xavier e acreditar que seu sonho é difícil. A ideia sempre vai ser que mutantes e humanos são filhos do átomo que deveriam conviver entre si, sem um pedir a permissão do outro.